A nova velha Guerra do Irã volta às manchetes, mas o que realmente agita os mercados é a dinâmica da inteligência artificial (IA). Diante da escassez de verdadeiras novidades, o curto prazo impõe aos mercados uma lógica desconfortável, mas relativamente fácil de assimilar na superfície. A questão central, levantada por Rodolfo Amstalden, é: por quanto tempo vamos continuar pagando a conta da inteligência artificial?
Concentração de lucros na IA
Para que as ações ligadas a hardware de inteligência artificial continuem a disparar, todos os papéis da “velha” economia precisam se sacrificar um pouco (ou muito). Não é nem mais aquela disputa clássica entre growth e value, mas sim uma versão hiperconcentrada da distribuição de Pareto. Ou você está junto aos poucos grandes sequestradores de lucros da IA ou está fora. Essa concentração extrema levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do movimento.
Vídeo: YouTube | Fonte: www.seudinheiro.com
Drenos de liquidez e narrativas diárias
Em mercados globais e arbitráveis, os drenos de liquidez funcionam como pêndulos diários, atraindo ou reprimindo a narrativa escolhida para o dia. Assim, o fluxo de capital para as big techs de IA drena recursos de outros setores, criando uma competição desigual. A lógica de curto prazo favorece a concentração, mas será que isso se sustenta no longo prazo?
O estranho descompasso dos fundamentos
Do ponto de vista de fundamentos, existe algo estranho com a dinâmica atual. Afinal, quão sustentável pode ser um contexto no qual poucos atores se apropriam de quase todo o lucro de uma indústria, sendo que os reais financiadores dessa mesma indústria (ainda?) não conseguem ver seu capex devidamente remunerado? Em tese, se o advento da IA realmente implica um salto de produtividade sistêmico, deveríamos ver as ações da “velha” economia subindo junto com as narrativas de IA, e não em detrimento delas. Pelo menos até o momento, não há qualquer sinal crível desse tipo de correlação. Os sinais apontam pesadamente em direção oposta.
Alerta de Michael Burry
Eu li primeiro esta provocação no Substack do Michael Burry (o cara do “Big Short”), mas ela pode ser também mais detalhadamente acessada no episódio recente do Market Makers com o Daniel Goldberg. Isso incitou Michael Burry a disparar um alerta sobre os feedback loops fechados dentro do ecossistema de IA, em que uma marca investe em outra marca, retroalimentando os valuations ao transformar, magicamente, capex em receita e receita em capex. Esse ciclo pode inflar bolhas artificiais, sem correspondência com a economia real.
Hyperscalers mudam de estratégia
As próprias hyperscalers já parecem estar se dando conta disso, ainda que de maneira tácita, sem fazer barulho. Amazon, Google e Meta tentam se posicionar, cada vez mais, como provedores de infra em vez de meramente financiadores, tentando ocupar um espaço do outro lado do balcão. Microsoft já tornou pública a percepção de que os gastos com chips (capex) e tokens (opex) ultrapassaram uma zona de decisões triviais. Apple — talvez a mais safa de todas, por motivos históricos (foi quem cometeu os maiores erros lá atrás) —, nunca mergulhou de vez em planos de capex mais artificiais do que propriamente inteligentes.
Fluxo versus fundamentos
O famoso ditado de Wall Street diz que contra fluxo não há fundamentos. Já contra fundamentos pode existir fluxo, mas por quanto tempo? A pergunta de Rodolfo Amstalden ecoa entre investidores: até quando a conta da inteligência artificial será paga pela velha economia, sem que haja retorno proporcional? O tempo dirá se os fundamentos prevalecerão ou se o fluxo continuará alimentando a bolha.
Fonte
- www.seudinheiro.com
- com o Daniel Goldberg.
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