O que está em jogo no Congresso
A discussão sobre o fim ou a redução da escala 6×1 pode trazer efeitos relevantes para as pequenas e médias empresas (PMEs) brasileiras. Com propostas em análise no Congresso Nacional, o principal desafio será se preparar para um cenário que tem chances reais de se concretizar.
Propostas em tramitação
Atualmente, duas propostas de emenda à Constituição tramitam no Congresso Nacional:
- No Senado, a PEC 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT/RS), prevê a redução gradual da jornada de trabalho para 36 horas semanais ao longo de cinco anos.
- Na Câmara dos Deputados, a PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL/SP), propõe uma jornada de 30 horas semanais distribuídas em quatro dias de trabalho, com manutenção integral do salário.
Impacto potencial da redução
A eventual redução da jornada para 30 ou 36 horas representa uma mudança significativa, sobretudo porque está associada à manutenção do salário. A proposta do Senado tem mais chances de avançar e é considerada mais viável do ponto de vista empresarial, justamente por prever um período de transição.
Diante disso, o impacto inicial da redução da jornada tende a ser significativo, sobretudo para negócios que funcionam todos os dias da semana e dependem da presença física dos funcionários.
Setores mais afetados pela mudança
A redução ou o fim da escala 6×1 tende a afetar de forma mais intensa negócios que dependem de operação contínua e apresentam maior fluxo de clientes nos fins de semana.
Comércio e serviços
No comércio, como supermercados, farmácias, lojas de varejo e shoppings, a escala 6×1 ajuda a diluir custos fixos, como aluguel e energia, ao longo de mais dias de funcionamento.
Em bares, restaurantes, padarias e hotéis, a demanda é fortemente concentrada em fins de semana e feriados, o que torna a escala 6×1 ainda mais relevante para sustentar o faturamento.
Em serviços, áreas como transporte, logística, limpeza, segurança e serviços administrativos terceirizados também recorrem ao modelo para garantir a continuidade das operações.
Dados por setor
Dados da VR, consolidados até outubro de 2025 com base na análise de 33 mil empresas atendidas pela companhia, reforçam essa concentração. Os setores que mais utilizam a escala 6×1 são:
- Comércio (49%)
- Bares e restaurantes (16%)
- Saúde (8%)
- Teleatendimento (5%)
- Serviços administrativos (5%)
- Administração imobiliária e predial (5%)
- Reparação de veículos (4%)
- Transporte (3%)
- Fabricação (3%)
Como as empresas se organizam hoje
Além da escala 6×1, outros modelos de jornada também são utilizados por diferentes setores.
Escala 5×3
Na escala 5×3, o comércio lidera, com 30%, seguido por:
- Saúde (13%)
- Serviços jurídicos (13%)
- Construção (13%)
- Serviços administrativos (10%)
- Tecnologia da informação (9%)
- Educação (7%)
- Arquitetura e engenharia (5%)
Escala 4×2
Na escala 4×2, os principais setores são:
- Comércio (26%)
- Construção (14%)
- Alimentação (13%)
- Saúde (10%)
- Serviços administrativos (9%)
- Educação (8%)
- Administração imobiliária e predial (5%)
- Serviços jurídicos (5%)
Esses dados mostram a diversidade de arranjos que podem ser impactados pelas mudanças em discussão.
Os principais desafios para as PMEs
O efeito mais imediato da redução da jornada para as PMEs tende a ser o aumento de custos. Com menos horas disponíveis por funcionário e manutenção dos salários, as empresas teriam basicamente duas alternativas:
- Contratar mais pessoas
- Ampliar o pagamento de horas extras
A consequência provável seria o repasse desses custos aos preços, com impacto direto na competitividade das PMEs. Isso pode representar um desafio adicional para negócios que já operam com margens apertadas, especialmente em setores com alta concorrência.
Diante desse cenário, a preparação se torna essencial. Empresários precisam avaliar como suas operações seriam afetadas e considerar ajustes em seus modelos de negócio. A adaptação pode envolver desde a reestruturação de equipes até a revisão de horários de funcionamento.
O caminho para a adaptação
Embora as propostas ainda estejam em tramitação, a discussão já sinaliza a necessidade de planejamento.
Período de transição
A proposta do Senado, considerada mais viável, oferece um período de transição de cinco anos, o que pode facilitar o ajuste gradual das empresas. Esse tempo permite que as PMEs avaliem suas necessidades específicas e busquem soluções adaptadas à sua realidade.
A análise cuidadosa dos custos operacionais e da demanda do mercado será fundamental nesse processo.
Preparação antecipada
Além disso, o diálogo com representantes setoriais e a busca por informações atualizadas sobre o andamento das propostas no Congresso podem ajudar na tomada de decisões. A preparação antecipada pode fazer a diferença na capacidade de adaptação quando e se as mudanças forem implementadas.
