Uma pesquisa global com 76 bancos centrais, realizada entre fevereiro e maio deste ano, revela uma tendência clara: a maioria das autoridades monetárias espera aumentar a participação do ouro em suas reservas nos próximos cinco anos. O estudo, conduzido em meio ao agravamento das tensões geopolíticas, aponta que 84% dos entrevistados preveem um crescimento do metal precioso nos cofres públicos, enquanto 74% acreditam em uma redução da fatia do dólar americano. O movimento, impulsionado pela desdolarização, também abre espaço para o yuan chinês, que deve ganhar relevância.
Ouro em alta nas reservas
De acordo com a pesquisa, 84% dos bancos centrais esperam que a participação do ouro nas reservas totais seja maior em cinco anos. O percentual supera o registrado no ano passado, quando 76% dos entrevistados tinham a mesma expectativa. O levantamento ouviu 76 instituições entre fevereiro e maio, período que coincide com o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, em 28 de fevereiro. A maioria das respostas chegou após o conflito, o que pode ter influenciado as percepções sobre a segurança das reservas.
O ouro é visto como um ativo de refúgio em tempos de incerteza. Para os bancos centrais, aumentar a exposição ao metal precioso é uma forma de diversificar reservas e reduzir a dependência de moedas estrangeiras. A tendência de alta na participação do ouro reflete uma estratégia de proteção contra riscos geopolíticos e econômicos.
Dólar perde espaço
Enquanto o ouro ganha terreno, o dólar americano perde força. A pesquisa mostra que 74% dos entrevistados preveem que a participação das reservas em dólares americanos caia no mesmo período de cinco anos. Esse movimento é um dos pilares da chamada desdolarização, processo em que países buscam reduzir a exposição à moeda norte-americana em suas reservas internacionais.
A queda esperada do dólar não significa um abandono total, mas sim uma readequação. Os bancos centrais estão reavaliando a composição de suas reservas, buscando maior equilíbrio entre diferentes ativos. O ouro, por sua característica de reserva de valor, surge como uma alternativa natural.
Yuan chinês em ascensão
Outro destaque da pesquisa é a expectativa de crescimento do yuan chinês. Mais da metade dos entrevistados afirmou esperar que a participação da moeda chinesa nas reservas totais dos bancos centrais aumente em cinco anos. Atualmente, o yuan representa apenas 1% das reservas globais, segundo dados do último trimestre de julho a setembro. Apesar do percentual modesto, a tendência de alta sinaliza uma mudança gradual no sistema monetário internacional.
A China tem incentivado o uso do yuan em transações comerciais e financeiras, e os bancos centrais parecem responder a esse movimento. No entanto, a participação ainda é pequena se comparada ao dólar ou ao euro. O avanço do yuan depende de fatores como a estabilidade da economia chinesa e a abertura de seus mercados.
Ásia lidera demanda por ouro
Muitos bancos centrais na Ásia têm mais capacidade de investir em ouro porque as reservas lá são muito maiores, segundo a pesquisa. Essas economias tendem a ter acumulado suas reservas ao longo de décadas de superávits comerciais. Países como China, Japão e Coreia do Sul possuem enormes volumes de reservas internacionais, o que lhes permite alocar uma parcela significativa em ouro sem comprometer a liquidez.
O banco central da China (PBoC) é um dos principais compradores de ouro do mundo. Apesar disso, o metal precioso ainda representa apenas 9% das reservas totais do PBoC. Esse percentual é baixo se comparado a países como Estados Unidos e Alemanha, onde o ouro corresponde a mais de 70% das reservas. A China, portanto, tem espaço para aumentar suas compras, o que pode impulsionar ainda mais a demanda global pelo metal.
A pesquisa com 76 bancos centrais oferece um panorama das tendências que devem moldar o sistema financeiro internacional nos próximos anos. A desdolarização, impulsionada por fatores geopolíticos e econômicos, está redesenhando a composição das reservas globais. O ouro e o yuan chinês emergem como os principais beneficiários desse movimento, enquanto o dólar americano perde terreno. Os próximos cinco anos serão cruciais para confirmar essas expectativas.
