O Banco do Japão (BoJ) iniciou um processo histórico de venda de seus fundos de índice negociados em bolsa (ETFs). A operação envolve ativos avaliados em 95 trilhões de ienes (cerca de US$ 610 bilhões).
O objetivo central é reduzir gradualmente uma posição massiva no mercado acionário. A decisão foi tomada em setembro, mas a implementação começou de forma discreta.
Um plano que atravessa gerações
O ritmo estabelecido para a venda dos ETFs é notavelmente lento. O banco central planeja desfazer-se de aproximadamente 330 bilhões de ienes por ano.
Esse valor é baseado no valor contábil das participações, estimado em 37 trilhões de ienes. Considerando esse cronograma, a venda completa levaria impressionantes 112 anos.
Objetivo da lentidão extrema
A lentidão extrema do plano não é acidental. Seu propósito declarado é evitar choques e instabilidade nos mercados financeiros.
Dessa forma, o banco central continuará sendo um grande acionista de empresas japonesas por muitos anos. Sua influência permanecerá significativa, ainda que em declínio gradual.
O legado de uma política extraordinária
A decisão marca uma virada em uma estratégia de afrouxamento monetário. O impacto do programa, que incluiu a compra maciça de ativos, persiste no tecido econômico.
Além dos ETFs, o BoJ também se tornou um grande proprietário indireto de imóveis urbanos. Isso ocorreu por meio da aquisição de fundos de investimento imobiliário (REITs).
Exposição imobiliária concentrada
Na primavera de 2024, a maior parte desses ativos imobiliários estava concentrada nos 23 distritos centrais de Tóquio. Essa exposição ilustra como as intervenções do banco central moldaram setores tangíveis da economia.
A presença do Estado como grande investidor em ações e imóveis é um fenômeno que perdurará.
Alertas que se tornaram realidade
Quando o BoJ decidiu começar a comprar ETFs e REITs, houve vozes de cautela. Masaaki Shirakawa, então governador, alertou sobre o risco de a medida se tornar permanente.
“Se o público não entender que esta é uma medida temporária e extraordinária, há o perigo de que ela se torne permanente”, afirmou na época. Segundo análises atuais, o risco alertado por Shirakawa efetivamente se concretizou.
Contraste com outros bancos centrais
Ikuko Fueda-Samikawa, diretora de pesquisa financeira do Centro Japonês de Pesquisa Econômica, observa esse cenário. A dificuldade em reverter políticas não convencionais contrasta com a agilidade de outros bancos centrais.
Um alto funcionário do BoJ destacou essa diferença. Ele afirmou que, ao responder a uma crise, o banco central dos Estados Unidos (Fed) “pode agir com ousadia e parar imediatamente”.
Para o mesmo funcionário, a questão dos ETFs é “um exemplo clássico da incapacidade do BoJ de fazer isso”.
Desafios para o próximo século
O horizonte temporal extraordinariamente longo da venda de ETFs introduz incertezas. O próximo século poderá trazer novos choques nos preços dos ativos.
Eventos imprevisíveis podem testar a resiliência dos mercados. Em tais cenários, há a possibilidade de que o banco central seja pressionado a voltar a comprar ativos.
Complexidade do encerramento de programas
Essa perspectiva sublinha a complexidade de encerrar programas de estímulo em larga escala. A estratégia do BoJ não é apenas uma operação técnica.
Ela representa um experimento de longo prazo na gestão de políticas monetárias não convencionais. O sucesso ou fracasso em evitar turbulências será observado ao longo de décadas.
As implicações se estenderão para futuras gerações de formuladores de políticas. Enquanto isso, o banco central japonês segue seu plano metódico.
Ele equilibra a necessidade de normalização com a estabilidade do mercado. A jornada de um século apenas começou.
