O chairman do BTG Pactual (BPAC11), André Esteves, criticou abertamente o atual patamar de emissão de títulos isentos no Brasil. Em declaração recente, o executivo classificou o volume desses papéis como “completamente absurdo” e afirmou que a prática está “simplesmente errada”. A fala ganha relevância por partir de um dos principais nomes do mercado financeiro brasileiro, que reconhece ser, ele próprio, detentor e emissor desses instrumentos.
A crítica de Esteves não se limita a um desabafo pessoal. Ela se insere em um contexto mais amplo de preocupação com a sustentabilidade das contas públicas. O executivo apontou que o tamanho das despesas do país está “insustentável” e que é preciso agir tanto pelo lado da receita quanto pelo lado da despesa. Nesse sentido, os títulos isentos aparecem como um exemplo concreto de renúncia fiscal que, na visão dele, precisa ser revista.
Volume de títulos isentos é ‘absurdo’
André Esteves foi enfático ao dimensionar o problema. Segundo ele, o estoque de títulos isentos no Brasil já ultrapassou a marca de R$ 2 trilhões ao final do primeiro semestre de 2026. A estimativa, citada pelo executivo, evidencia a magnitude do mercado de papéis que gozam de isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas, como debêntures incentivadas, LCIs, LCAs, CRIs e CRAs.
O crescimento acelerado desses instrumentos tem chamado a atenção de economistas e gestores públicos. A atratividade para o investidor é clara: rendimentos livres de imposto, muitas vezes com risco baixo e liquidez razoável. No entanto, o custo para o governo é igualmente expressivo. Um levantamento feito pela corretora Warren Rena em 2025 apontou que a perda arrecadatória anual do governo com esses papéis é da ordem de R$ 33 bilhões.
Esse montante deixa de entrar nos cofres públicos todos os anos, pressionando ainda mais um orçamento que já enfrenta dificuldades. A fala de Esteves ecoa um debate que ganha força entre formuladores de política econômica: até que ponto a isenção fiscal para esses títulos se justifica diante da necessidade de ajuste das contas públicas?
Vídeo: YouTube | Fonte: www.seudinheiro.com
Declaração polêmica de quem emite
O que torna a crítica de André Esteves particularmente notável é o fato de ele admitir que participa ativamente desse mercado. “O volume de títulos isentos no Brasil é completamente absurdo. Eu sou detentor desses títulos, emito esses títulos, mas está simplesmente errado. E isso tem a ver com receita”, afirmou o chairman do BTG Pactual.
A declaração revela uma postura incomum no meio empresarial: reconhecer que uma prática da qual se beneficia é prejudicial ao interesse público. Esteves não se exime da responsabilidade, mas aponta a necessidade de mudança estrutural. Para ele, o problema não é apenas moral, mas fiscal — a renúncia de receita compromete a capacidade do Estado de financiar serviços essenciais.
Ao vincular a questão dos títulos isentos à receita, o executivo sugere que o governo precisa reavaliar os incentivos concedidos. Não se trata, segundo ele, de uma medida ideológica, mas de eficiência na gestão dos recursos públicos. A fala abre espaço para um debate mais amplo sobre quem realmente se beneficia dessas isenções e se o custo social é justificável.
Despesas ‘insustentáveis’ e ajuste fiscal
André Esteves também abordou a situação geral das contas públicas. Para ele, o tamanho das despesas do país está “insustentável”. A avaliação reflete a preocupação com o crescimento contínuo dos gastos obrigatórios e a dificuldade de conter o déficit fiscal.
O executivo citou as regras que estabelecem pisos de gastos para setores como saúde e educação. Essas regras vinculam recursos públicos a determinadas despesas. Essas vinculações, embora tenham sido criadas com objetivos sociais importantes, reduzem a flexibilidade do orçamento e dificultam a realocação de recursos para áreas mais prioritárias.
Na visão de Esteves, é preciso enfrentar essas amarras institucionais. “Tem coisas tão simples para aumentar a eficiência do gasto público, que são não ideológicas, não são partidárias”, afirmou. A declaração sugere que há espaço para consenso em torno de medidas que melhorem a qualidade do gasto sem necessariamente cortar serviços essenciais.
Receita e despesa: dois lados da moeda
Para André Esteves, o ajuste fiscal não pode se limitar a um único lado da equação. “Então, dentre essas 20 coisas que a gente precisa fazer, vão ter sempre os dois lados: da receita e da despesa”, disse. A fala indica que, na visão do executivo, será necessário combinar aumento de arrecadação com contenção de gastos.
No campo da receita, a revisão dos títulos isentos aparece como uma das medidas possíveis. No campo da despesa, a desvinculação de recursos e a revisão de pisos constitucionais são apontadas como caminhos para dar mais eficiência ao orçamento. O desafio, reconhece o próprio mercado, é político: muitas dessas mudanças exigem emendas constitucionais e enfrentam resistência de grupos organizados.
Segundo Esteves, o custo de não agir pode ser maior, dado o cenário de dívida pública elevada e juros altos. Com uma dívida pública elevada e juros altos, a sustentabilidade fiscal se torna condição para a retomada do crescimento econômico. Nesse sentido, o debate sobre os títulos isentos é apenas uma peça de um quebra-cabeça muito maior.
O que esperar do debate
As declarações de André Esteves devem alimentar discussões no Congresso e no Executivo sobre a reforma tributária e a revisão de incentivos fiscais. A fonte não detalhou se há propostas concretas em tramitação para alterar as regras dos títulos isentos, mas a pressão de figuras influentes do mercado pode acelerar o debate.
Para os investidores, a mensagem é clara: a eventual tributação desses rendimentos alteraria a rentabilidade líquida e poderia redirecionar fluxos para outros ativos. Quem detém LCIs, LCAs, CRIs, CRAs ou debêntures incentivadas deve acompanhar de perto as discussões sobre o tema. A eventual tributação desses rendimentos alteraria a rentabilidade líquida e poderia redirecionar fluxos para outros ativos.
Por ora, a fala de Esteves serve como um alerta. O mercado financeiro, que muitas vezes se beneficia de brechas fiscais, começa a reconhecer que o modelo atual é insustentável. Resta saber se o reconhecimento se traduzirá em mudanças efetivas na legislação.
Fonte
- www.seudinheiro.com
- 1 Todos os números da Lotofácil da Independência: veja os resultados e as dezena (seudinheiro.com)
- 2 País europeu oferece moradia e alimentação gratuitas para quem cuidar de gatos (seudinheiro.com)
- 3 Quem vai acertar os números da Lotofácil da Independência? Confira os palpites (seudinheiro.com)
- Brasil vai quebrar? Entenda o que é risco fiscal e como as contas públicas afeta (www.youtube.com)
