A Suzano, uma das maiores produtoras de celulose do mundo, publicou seu primeiro relatório alinhado às recomendações da Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza (TNFD). No documento, a companhia identificou 388 mil hectares de áreas sensíveis à natureza em suas operações e cadeia de valor. O levantamento, divulgado recentemente, marca um passo significativo na integração de riscos e oportunidades relacionados à biodiversidade na estratégia corporativa.
Giordano Automare, gerente executivo de Sustentabilidade da Suzano, destacou que a iniciativa foi construída a partir de uma estrutura de gestão socioambiental que a empresa já mantinha. “Não partimos do zero”, afirmou, ressaltando que a companhia acompanha o TNFD desde 2021. A Suzano participou do grupo de 40 instituições que apoiaram a iniciativa em seu lançamento, o que lhe permitiu acesso antecipado às discussões e metodologias.
Antes da publicação do framework, em 2023, a Suzano diz ter realizado pilotos internos com versões preliminares das recomendações. Esses testes ajudaram a adaptar as diretrizes globais à realidade do setor de base florestal. O trabalho exigiu o cruzamento de diferentes conjuntos de informações, incluindo dados geoespaciais, para mapear áreas de alto valor ecológico e potenciais impactos das operações.
Metodologia combina ferramentas reconhecidas internacionalmente
Para avaliar dependências e impactos, a companhia utilizou a ferramenta ENCORE, desenvolvida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e parceiros. O ENCORE permite vincular atividades econômicas a serviços ecossistêmicos e identificar onde a natureza é mais crítica para a produção. Complementarmente, o Nature Capital Protocol foi empregado para quantificação, oferecendo uma estrutura padronizada para medir e valorar impactos e dependências.
O cruzamento dessas metodologias resultou em um diagnóstico abrangente. A Suzano não detalhou, no relatório, a distribuição geográfica exata dos 388 mil hectares, mas indicou que as áreas sensíveis incluem fragmentos de vegetação nativa, corredores ecológicos e zonas de recarga hídrica. O relatório não especifica se os 388 mil hectares incluem áreas de fornecedores ou apenas áreas próprias.
Especialistas consultados pela reportagem, que não são citados no relatório, consideram que o uso de múltiplas ferramentas aumenta a robustez da análise. No entanto, a falta de detalhamento sobre critérios de sensibilidade pode limitar comparações com outras empresas. Ainda assim, o relatório representa um avanço na transparência sobre riscos naturais.
Resultados orientam estratégia de conservação
Os resultados do levantamento foram utilizados na construção da Estratégia de Natureza da companhia. Essa estratégia define prioridades de ação para reduzir impactos negativos e ampliar contribuições positivas à biodiversidade. Os resultados passaram a apoiar decisões relacionadas à conservação e restauração, influenciando desde o planejamento de plantios até a seleção de áreas para compensação ambiental.
Um exemplo concreto citado no relatório é a priorização de corredores ecológicos em regiões de alta fragmentação. A Suzano afirma que, com base nos dados, redirecionou esforços de restauração para áreas que conectam remanescentes florestais, potencializando o ganho ecológico por hectare investido. A companhia também passou a considerar a sensibilidade hídrica na definição de novas áreas de plantio.
Além disso, o relatório destaca a integração da agenda de natureza com metas climáticas. A Suzano já possui compromissos públicos de redução de emissões e remoção de carbono, e a nova estratégia busca sinergias entre biodiversidade e clima. A fonte não detalhou metas específicas de biodiversidade além da já mencionada conectividade de 500 mil hectares.
Meta de conectividade até 2030
A agenda de natureza foi relacionada a uma meta de conectar 500 mil hectares de fragmentos de vegetação nativa no Cerrado, na Mata Atlântica e na Amazônia até 2030. Essa meta, anterior ao relatório TNFD, ganhou novo embasamento técnico com os dados de sensibilidade. A Suzano afirma que a maioria dos 388 mil hectares identificados como sensíveis está dentro do escopo dessa meta.
A conexão de fragmentos é considerada uma das estratégias mais eficazes para conservação da biodiversidade em paisagens produtivas. Ela permite o fluxo gênico entre populações de fauna e flora, reduz o risco de extinções locais e aumenta a resiliência dos ecossistemas às mudanças climáticas. No Cerrado, bioma onde a Suzano tem operações significativas, a fragmentação é um dos principais vetores de perda de biodiversidade.
O relatório não especifica o progresso atual em relação à meta de 500 mil hectares. O relatório não informa quantos hectares já foram conectados ou restaurados até o momento. No entanto, a companhia afirma que o monitoramento será anual e que os resultados serão reportados em futuros relatórios TNFD.
Desafios e próximos passos
Apesar dos avanços, a Suzano reconhece que a implementação completa das recomendações do TNFD é um processo contínuo. A companhia aponta desafios como a disponibilidade de dados de biodiversidade em escala local e a necessidade de engajar fornecedores na agenda. O relatório não detalha planos específicos para superar esses obstáculos.
O relatório também menciona a importância de alinhar as divulgações de natureza com as de clima, seguindo tendência global de relato integrado. A Suzano afirma que pretende evoluir a granularidade das informações, incluindo métricas de estado da natureza e indicadores de resposta. A Suzano não informou se buscará verificação externa para o relatório.
Para o setor de papel e celulose, o relatório da Suzano pode servir de referência. Outras empresas do ramo têm sido pressionadas por investidores a divulgar riscos relacionados à biodiversidade, especialmente em regiões de alto valor ecológico. A adoção do TNFD é vista como um passo para atender a essas demandas e antecipar regulações futuras.
Em resumo, o primeiro relatório TNFD da Suzano traz um número relevante — 388 mil hectares sensíveis — e demonstra a aplicação de metodologias reconhecidas. A integração com a meta de conectividade de 500 mil hectares até 2030 dá concretude à estratégia. Resta acompanhar como esses dados se traduzirão em ações mensuráveis nos próximos anos.

