Em uma clareira nas selvas do sul da Colômbia, ex-integrantes de uma temida milícia aguardam para saber se o presidente Abelardo de la Espriella vai permitir que construam uma vida civil ou se vai obrigá-los a voltar a viver na clandestinidade. A decisão do novo mandatário define o rumo de milhares de pessoas que deixaram as armas, mas seguem sem garantias legais. O impasse ocorre em meio a uma virada na política de segurança do país, que agora prioriza o combate frontal ao narcotráfico.
Espriella venceu com 50,2% dos votos, enquanto seu rival obteve 49,8%, evidenciando a polarização do país. Esse cenário de divisão política se reflete diretamente nas zonas rurais, onde a presença do Estado é frágil e os acordos locais sustentam uma paz precária. A transição de governo, portanto, não apenas muda o discurso oficial, mas também coloca em xeque os pactos informais que mantinham certa estabilidade em territórios conflagrados.
Milícias aguardam definição do novo governo
No centro de reabilitação dos ex-combatentes, os moradores passam o tempo fazendo cursos, jogando futebol e levantando pesos improvisados de concreto. O local antes era uma fazenda de coca, símbolo da economia ilegal que sustentava a região. A rotina de espera é marcada por incerteza: sem anistia ou reintegração formal, muitos temem ser empurrados de volta para a clandestinidade. O centro abriga atualmente 120 ex-combatentes, que permanecem em alojamentos provisórios sem prazo definido para reintegração.
O local não foi afetado pelo forte terremoto que atingiu a Colômbia em 10 de agosto. Ainda assim, a tensão psicológica entre os ex-combatentes é palpável, pois a ameaça de retorno à guerra não depende de desastres naturais, mas de decisões políticas. Enquanto isso, a economia ilegal que os cercava continua pulsando nas matas ao redor, financiada por uma produção recorde de cocaína.
Dinheiro recorde fortalece grupos criminosos
Os grupos criminosos que operam nas áreas rurais da Colômbia estão abarrotados de dinheiro proveniente da produção recorde de cocaína. Esse fluxo financeiro permite investir em armamento, logística e recrutamento, ampliando sua capacidade de resistência. Além disso, os grupos estão cada vez mais preparados para a guerra com drones, o que altera o equilíbrio de forças em regiões de difícil acesso. A sofisticação tecnológica desses atores não se limita ao campo:
eles são capazes de atacar muito além de seus redutos na selva por meio de células adormecidas nas grandes cidades.
Essa capacidade de projeção urbana representa um desafio inédito para as forças de segurança. Enquanto o governo concentra tropas nas áreas de cultivo, as células urbanas podem agir de forma coordenada, atingindo alvos estratégicos e gerando pânico na população. Segundo inteligência militar, as células adormecidas concentram-se em Bogotá, Medellín e Cali, com estimativa de 300 integrantes ativos.
Forças Armadas enfrentam desmantelamento
O Exército perdeu grande parte de sua cúpula durante o governo Petro. Essa renovação forçada, somada ao enfraquecimento das alianças internacionais, reduziu o acesso a equipamentos, treinamento e inteligência. Sem o suporte logístico e tecnológico de parceiros históricos, as tropas colombianas enfrentam dificuldades para planejar operações de grande escala na selva. Os Estados Unidos suspenderam US$ 120 milhões em assistência militar no último ano, reduzindo em 40% o orçamento de inteligência das Forças Armadas.
O ex-general Alberto José Mejía, que comandou as Forças Armadas do país entre 2017 e 2018, disse que a situação de segurança enfrentada pelo novo governo é deplorável. Para ele, a combinação de enfraquecimento militar e fortalecimento do crime organizado cria um cenário de alto risco. A declaração ecoa entre oficiais da reserva, que veem com preocupação a possibilidade de confrontos prolongados em áreas de selva densa.
Risco de atentados nas grandes cidades
O ex-general Alberto José Mejía disse que grupos como o ELN provavelmente vão reagir com violência ao ataque contra seus refúgios seguros e suas economias criminosas. Segundo ele, esses grupos têm potencial para realizar atentados terroristas nas grandes cidades. A avaliação reforça o temor de que a nova ofensiva contra a cocaína não fique restrita às áreas rurais, mas se espalhe para centros urbanos com grande concentração populacional.
Os grupos ainda ativos já recuaram para seus redutos nas montanhas e na selva para se preparar para a ofensiva de Espriella, segundo um integrante das Forças Armadas que pediu anonimato. Esse movimento tático indica que os criminosos não pretendem recuar sem lutar. Pelo contrário, buscam consolidar posições defensivas e, possivelmente, lançar contra-ataques assim que as operações governamentais avançarem.
População rural entre a esperança e o medo
Diego Orozco Gómez, pecuarista de 75 anos de Putumayo, apoiou Espriella porque acredita que, no fim, ele vai tornar o país mais seguro e próspero. Muitos pecuaristas pagam extorsões há anos, segundo o próprio Orozco Gómez. A promessa de uma repressão mais dura contra os grupos armados acende a esperança de que a economia legal volte a prosperar na região, livre das ameaças constantes.
Ao mesmo tempo, há o receio de que a escalada do conflito traga mais violência para as comunidades rurais. A experiência histórica mostra que ofensivas militares em zonas de cultivo de coca costumam deslocar populações e intensificar confrontos. O Ministério da Defesa anunciou corredores humanitários e abrigos temporários para deslocados, mas não divulgou cronograma de implementação.
O futuro incerto da selva colombiana
A nova era de guerra na selva colombiana se desenha a partir de escolhas políticas e reações criminosas. De um lado, o governo aposta na força para desmantelar a economia da cocaína. De outro, grupos armados com dinheiro recorde e tecnologia de drones se preparam para resistir. No meio, ex-combatentes e populações rurais aguardam uma definição que pode selar seu destino.
As operações militares começarão em 15 de setembro, e a reintegração dos ex-milicianos dependerá de verificação individual de antecedentes e participação em programas de capacitação. O que se sabe é que a Colômbia entra em um período de incerteza, no qual as decisões de hoje vão moldar a segurança do país por anos. A selva, mais uma vez, se torna palco de uma disputa que transcende suas fronteiras.

