Tese vinculante de abril pode barrar pautas-bomba
O Supremo Tribunal Federal (STF) tende a derrubar as chamadas pautas-bomba aprovadas pelo Senado se aplicar a própria jurisprudência. A avaliação é de integrantes da Corte ouvidos pelo Valor. Em abril, o Supremo fixou uma tese vinculante que barra o aumento de gastos públicos sem a indicação de fonte de custeio. Esse entendimento, agora consolidado, serve como base para questionar projetos que criam despesas sem contrapartida orçamentária.
A tese foi estabelecida no julgamento de uma ação que tratava da obrigatoriedade de compensação financeira para novas despesas. Desde então, tornou-se um instrumento jurídico relevante para o controle fiscal. Integrantes do STF apontam que a mesma lógica se aplica às pautas-bomba em tramitação no Congresso. O governo, por sua vez, já sinalizou que pretende usar esse argumento caso as propostas avancem.
Governo pode usar precedente contra propostas do Senado
O argumento da tese vinculante deve ser explorado pelo governo caso as pautas avancem no Congresso, segundo apurou o Valor com fontes do Executivo. A estratégia é recorrer ao STF para questionar a constitucionalidade de projetos que aumentem gastos sem indicar a origem dos recursos. Isso inclui medidas como a renegociação de dívidas rurais e outros benefícios que impactam o orçamento federal.
Fontes do Executivo destacam que a tese de abril oferece uma base sólida para contestar essas iniciativas. O governo avalia que, se as pautas-bomba forem aprovadas, o STF poderá suspendê-las por meio de reclamação ou ação direta de inconstitucionalidade. A medida visa evitar desequilíbrios fiscais e proteger a responsabilidade orçamentária.
Gilmar Mendes já se manifestou publicamente
O único ministro que tratou do tema publicamente até o momento foi Gilmar Mendes. Em declarações recentes, ele afirmou que o Congresso não “pode criar despesas a serem suportadas por Estados e municípios” sem indicar a fonte de custeio. A fala reforça o entendimento de que a ausência de contrapartida financeira inviabiliza a aprovação de projetos que gerem custos para outros entes federativos.
Gilmar Mendes citou a suspensão do piso nacional da enfermagem como precedente. Na ocasião, o STF suspendeu a eficácia da lei justamente pela falta de fonte de custeio. “O STF suspendeu a eficácia da lei justamente pela ausência de fonte de custeio e condicionou o pagamento do piso pelos entes federativos ao repasse de recursos pela União”, destacou o ministro. Esse caso serve de referência para futuras decisões sobre pautas-bomba.
Reclamação pode ser caminho para questionar propostas
Citando a tese fixada em abril, outro ministro sustenta que as propostas aprovadas pelo Senado podem ser questionadas por meio de reclamação. Esse instrumento jurídico permite que o STF corrija decisões que contrariem sua jurisprudência. No contexto das pautas-bomba, a reclamação seria um mecanismo ágil para suspender leis que violem a tese vinculante.
Ministros ouvidos pelo Valor avaliam que a via da reclamação é adequada porque o STF já consolidou o entendimento sobre a necessidade de fonte de custeio. Dessa forma, projetos que ignorem essa exigência podem ser rapidamente contestados. A Corte tende a acolher esses pedidos, especialmente se houver risco de dano fiscal imediato.
Dívida rural pode ser testada em eventual veto
No caso da dívida rural, uma possibilidade é que o pedido só seja feito ao Supremo no caso de uma eventual derrubada de veto. Isso significa que, se o Congresso rejeitar o veto presidencial a um projeto que renegocie dívidas sem fonte de custeio, o governo poderá recorrer ao STF. A tese de abril seria então aplicada para questionar a constitucionalidade da medida.
Esse cenário ainda depende de desdobramentos legislativos. Enquanto isso, o governo monitora as pautas-bomba e prepara argumentos jurídicos para cada uma delas. A expectativa é que o STF mantenha a coerência com sua jurisprudência recente, garantindo que novas despesas sejam acompanhadas de fontes de custeio claras.
A tese fixada em abril representa um marco no controle de gastos públicos. Sua aplicação às pautas-bomba do Senado pode redefinir o equilíbrio entre os Poderes e a responsabilidade fiscal no país. O desfecho dependerá da tramitação das propostas e das decisões do STF, mas o precedente já está estabelecido.

