Um levantamento inédito revela que 74% das decisões judiciais envolvendo empresas resultam em condenação por responsabilidade civil, com pagamento de indenizações por danos materiais ou morais. O estudo, conduzido pela Turivius, analisou julgados publicados entre 2022 e 2025 em tribunais superiores e estaduais, incluindo STF, STJ e tribunais de Justiça, com destaque para o TJSP. Danilo Limoeiro, CEO da Turivius e especialista em jurimetria e análise estratégica de precedentes, destaca que os números acendem um alerta para o ambiente de negócios no Brasil.
Análise abrange tribunais superiores e estaduais
A análise identificou padrões quantitativos e qualitativos em decisões relacionadas à responsabilidade civil empresarial, contratos B2B, relações de consumo, execuções, proteção de dados e desconsideração da personalidade jurídica. O recorte temporal de 2022 a 2025 permitiu mapear tendências recentes e a postura dos tribunais diante de diferentes tipos de litígio. O TJSP, por ser o tribunal com maior volume de processos empresariais, teve destaque na amostra.
Contratos civis empresariais: 66% de condenação
Nos contratos civis empresariais, 66% dos casos de inadimplemento resultaram em condenação. Isso significa que, quando uma empresa deixa de cumprir obrigações contratuais, a chance de ser condenada é alta. As empresas conseguem afastar a responsabilidade apenas quando comprovam efetivamente a ocorrência de caso fortuito externo ou força maior imprevisível e inevitável. Alegações genéricas relacionadas ao risco da atividade têm pouca eficácia nos tribunais, que mantêm predominante a aplicação da teoria do risco do negócio. Situações como atraso na entrega de produtos ou serviços, paralisação injustificada de fornecimento e descumprimento contratual sem demonstração de evento externo estão entre os casos com maior índice de condenação.
Dificuldade de prova em danos complexos
Cerca de 57% dos pleitos envolvendo lucros cessantes ou danos materiais mais complexos foram rejeitados por insuficiência de provas. Isso indica que, embora a responsabilidade seja frequentemente reconhecida, a quantificação do dano exige documentação robusta. Empresas que buscam indenizações por lucros cessantes precisam apresentar demonstrações financeiras, contratos e projeções detalhadas para convencer o juiz.
Relações de consumo: responsabilidade solidária e objetiva
Nas relações de consumo, 78% das decisões reconheceram a responsabilidade solidária da cadeia de fornecimento. Além disso, 82% das decisões aplicaram responsabilidade objetiva nas disputas consumeristas. A exclusão de responsabilidade de um fornecedor ocorre apenas quando a empresa consegue demonstrar de forma inequívoca que não teve relação funcional com o dano alegado. Isso reforça a proteção ao consumidor e exige que todos os elos da cadeia estejam atentos à qualidade dos produtos e serviços.
Proteção de dados ganha espaço na jurisprudência
Entre 2023 e 2025, os casos relacionados à proteção de dados passaram a aparecer com maior frequência na jurisprudência. Eles representam cerca de 10% dos casos da amostra analisada. Com a vigência da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), as empresas passaram a enfrentar ações por vazamento de informações, uso indevido de dados pessoais e falhas de segurança. A tendência é de aumento desses litígios nos próximos anos.
Condenações milionárias em litígios complexos
Em litígios mais complexos, especialmente aqueles envolvendo fornecimento industrial ou contratos de construção, as condenações podem ultrapassar R$ 1 milhão. Esses casos geralmente envolvem grandes projetos, prazos alongados e múltiplas partes. A complexidade probatória é maior, mas quando a responsabilidade é comprovada, os valores são expressivos.
Desconsideração da personalidade jurídica: requisitos rigorosos
A desconsideração da personalidade jurídica depende da comprovação objetiva de desvio de finalidade ou confusão patrimonial, conforme previsto no artigo 50 do Código Civil. Situações como insolvência empresarial ou dissolução irregular, isoladamente, raramente são consideradas suficientes para justificar a responsabilização direta dos sócios. O instituto é aplicado com cautela pelos tribunais, que exigem provas concretas de abuso da personalidade jurídica.
Perspectivas para 2026
A evolução temporal das decisões registradas sugere que essa tendência deve se intensificar a partir de 2026. O aumento do número de ações, aliado à consolidação de entendimentos jurisprudenciais, indica que as empresas precisarão aprimorar suas práticas de compliance e gestão de riscos legais. A adoção de contratos mais claros, a documentação rigorosa de eventos e a capacitação de equipes jurídicas internas podem reduzir a exposição a condenações.
Fonte
- exame.com
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