Brasil: gigante adormecido das terras raras
O Brasil possui a segunda maior reserva comprovada de terras raras do mundo, atrás apenas da China, com cerca de 25 milhões de toneladas. Esse volume representa 23% do total das reservas globais desses elementos, considerados estratégicos para a indústria de alta tecnologia. No entanto, a exploração nacional é de aproximadamente 0,1% da produção mundial – um contraste que expõe o enorme potencial ainda não aproveitado.
As terras raras são compostas por um grupo de 17 elementos químicos, conforme lista do Serviço Geológico do Brasil (SGB): lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio, escândio e ítrio. Esses materiais são cruciais para a produção de tecnologias de alta performance, eletrônicos e energia renovável, como ímãs de turbinas eólicas e baterias de veículos elétricos.
Diante desse cenário, surge a pergunta: de quem são hoje as jazidas dos elementos mais cobiçados do Brasil? A resposta envolve um emaranhado de requerimentos, autorizações e uma única operação comercial em andamento.
Exploração concentrada em três estados
De acordo com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), existem mais de 9 mil requerimentos de exploração de minerais críticos no país, números referentes a 2025. Desses, mais de 1.400 são autorizações de pesquisa especificamente para terras raras, concedidas pela ANM em todo o território nacional. As autorizações estão concentradas principalmente nos estados de Goiás, Minas Gerais e Bahia.
Apesar do grande número de autorizações, todas elas se encontram em fases pré-operacionais – ou seja, ainda não há produção comercial associada a esses projetos. A única exceção é a mineradora Serra Verde, que já está na etapa de comercialização de terras raras.
Serra Verde: a exceção que confirma a regra
A Serra Verde explora a jazida Pela Ema, localizada no município de Minaçu (GO). O depósito é do tipo argila iônica, rico em terras raras leves e pesadas, o que o torna particularmente valioso. A empresa é a única que produz terras raras em escala fora da Ásia, posicionando-se como um player global relevante.
Recentemente, a Serra Verde foi vendida para a empresa de terras raras USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, em uma transação que chamou a atenção do setor. A aquisição demonstra o interesse internacional pelos ativos brasileiros e coloca a jazida Pela Ema no centro das atenções.
Além das terras raras: nióbio, ferro e grafita
O Brasil também se destaca na produção de outros minerais críticos. O país concentra 94% das reservas mundiais de nióbio, um metal essencial para a produção de ligas de aço de alta resistência. Além disso, possui 12% das reservas mundiais de ferro e 22% das reservas mundiais de grafita, mineral crucial para baterias e lubrificantes.
Esses números reforçam a posição do Brasil como um dos maiores detentores de recursos minerais estratégicos do planeta. No entanto, a exploração efetiva ainda enfrenta desafios regulatórios, ambientais e de investimento.
Desafios e perspectivas para o setor
O contraste entre o enorme potencial e a baixa produção efetiva levanta questões sobre o futuro da mineração de terras raras no Brasil. Enquanto a China domina o mercado global, o Brasil caminha a passos lentos para transformar suas reservas em produto final. A venda da Serra Verde para a USA Rare Earth pode ser um sinal de que o capital estrangeiro está disposto a apostar no potencial brasileiro.
Por ora, as mais de 1.400 autorizações de pesquisa em Goiás, Minas Gerais e Bahia aguardam avanços. A fonte não detalhou prazos para que esses projetos entrem em operação. O que se sabe é que, sem investimentos e políticas públicas consistentes, o Brasil continuará sendo um gigante adormecido no mercado de terras raras.

