O mercado de crédito privado no Brasil enfrenta um momento de correção e desafios. Segundo Jean-Pierre Cote Gil, sócio da Vinland Capital, dois fatores principais travam seu crescimento: os prêmios dos títulos públicos e uma legislação de falências vista como complacente.
Ele participou do painel de renda fixa do 12º Fórum de Investimentos no Brasil, organizado pelo Bradesco BBI. Cote Gil afirmou que as empresas estão “perdendo a vergonha” de envolver os credores nos custos durante processos de recuperação.
Os dois pilares que travam o crescimento do crédito privado
Jean-Pierre Cote Gil identificou duas âncoras principais que limitam a expansão do crédito privado no país atualmente.
1. A atratividade dos títulos públicos
Os títulos públicos oferecem taxas elevadas e competem diretamente pelos recursos dos investidores. Em um cenário com disseminação de casos de proteção contra credores, competir com essas taxas altas se torna inviável.
Essa competição desequilibrada pressiona o chamado ‘spread’. Essa diferença entre as taxas dos títulos públicos e as do crédito privado remunera o risco que o investidor assume. A situação atual reduz a atratividade relativa do crédito privado.
2. A atual Lei de Falências
A legislação, mesmo após revisões, ainda é considerada ineficiente e muito ruim para o mercado de crédito. Cote Gil foi enfático ao criticá-la.
Ele afirmou que ela deixa espaço para o devedor chamar o credor e dizer: ‘divide a conta aqui comigo’. Essa percepção de complacência contribui para que a recuperação judicial e extrajudicial se torne algo “corriqueiro”.
O resultado é um aumento na sensação de risco para quem empresta dinheiro às empresas.
A Lei de Falências sob crítica e o caminho para o desenvolvimento
Para o especialista, a próxima etapa de desenvolvimento do mercado depende fundamentalmente de duas mudanças:
- A adoção de uma Lei de Falências mais pró-credor, que ofereça maior segurança jurídica aos investidores.
- A redução da competição direta com o financiamento do governo, por meio de títulos públicos.
Sem esses avanços, o setor pode continuar enfrentando dificuldades para atrair capital em volume significativo.
O perfil conservador do investidor brasileiro
Outro fator crucial nessa equação é o perfil do investidor brasileiro. Cote Gil o descreveu como bastante avesso a risco.
Perder dinheiro é muito sensível para o investidor local, que tem uma tendência mais conservadora. Essa característica torna o mercado especialmente sensível a qualquer sinal de instabilidade ou aumento de risco nos ativos de crédito privado.
Esse conservadorismo ajuda a explicar por que os ajustes recentes nos preços e nas taxas dos títulos têm um impacto tão significativo. Tais correções prejudicam diretamente a rentabilidade dos fundos de crédito.
Desde o começo do ano, a classe de ativos de crédito privado começou a registrar retornos negativos. Esse movimento preocupa gestores e investidores.
Desafios imediatos para os gestores de crédito
Os próximos meses devem ser desafiadores para os gestores, segundo a análise apresentada.
- Os resgates dos investidores já começaram, embora ainda em volumes considerados baixos.
- Há uma expectativa de aumento das retiradas de recursos nos próximos meses, o que pode pressionar ainda mais os fundos e os preços dos ativos.
Visões contrastantes sobre oportunidades
Em contraste com esse cenário de cautela, há também visões que enxergam oportunidades no momento atual. Alexandre Muller, sócio e gestor da JGP, acredita que as melhores oportunidades de alocação estão aparecendo agora.
Essa perspectiva sugere que, para investidores com tolerância a risco e horizonte de longo prazo, o atual ambiente de correção pode oferecer opções interessantes. A fonte não detalhou quais seriam essas oportunidades específicas.
Um mercado em transformação e ajuste
O momento atual representa uma fase de ajuste para o mercado de crédito privado brasileiro. As correções nos preços e nas taxas dos títulos refletem uma reavaliação dos riscos por parte dos investidores.
Essa reavaliação é influenciada tanto pela atratividade dos títulos públicos quanto pelas preocupações com a legislação de falências. Para Cote Gil, a combinação desses fatores cria um cenário complexo que exige atenção constante.
A discussão levantada no Fórum de Investimentos do Bradesco BBI destaca a necessidade de um debate mais amplo sobre o marco regulatório do crédito no país.
Enquanto investidores aguardam possíveis mudanças na legislação, os gestores precisam navegar por um ambiente de retornos negativos e expectativa de maiores resgates.
O caminho para uma retomada mais sólida do setor, segundo a análise apresentada, passa por reformas que equilibrem melhor os interesses de devedores e credores.

