O mercado de trabalho brasileiro vive um paradoxo: enquanto a taxa de desemprego entre profissionais qualificados é baixíssima, as empresas encontram cada vez mais obstáculos para preencher vagas com pessoas que tenham as habilidades exigidas. Segundo levantamento da Robert Half, oito em cada dez recrutadores (81%) afirmam enfrentar dificuldades para contratar talentos com as competências necessárias. O dado faz parte do Índice de Confiança Robert Half (ICRH) e revela um cenário desafiador para as organizações.
Escassez de talentos: um problema estrutural
Para Leonardo Berto, gerente da Robert Half, a dificuldade de contratação tem uma explicação importante: boa parte dos profissionais mais disputados já está empregada. “Esse número é reflexo da escassez de talentos qualificados disponíveis no mercado”, afirma. A taxa de desemprego é de apenas 2,8% entre profissionais acima de 25 anos e com ensino superior completo, o que reforça a tese de que a oferta de mão de obra especializada é limitada. Berto reforça que “boa parte dos candidatos mais procurados já está empregada, o que intensifica a disputa entre as empresas por esses profissionais”.
Além da baixa disponibilidade, o perfil exigido pelas companhias também mudou. Leonardo Berto, gerente da Robert Half, afirmou: “O desafio não está apenas em encontrar profissionais disponíveis, mas em encontrar profissionais com a combinação de competências que cada posição exige”. As empresas também estão mais seletivas sobre o conjunto de habilidades esperado de um candidato. Não basta mais ter apenas conhecimento técnico; capacidade de adaptação e potencial de desenvolvimento passaram a ganhar espaço nos processos seletivos. Segundo Berto, muitas organizações passaram a investir em profissionais com potencial de desenvolvimento e aprendizado, mesmo quando não atendem integralmente aos requisitos da vaga.
Setores mais afetados
Em tecnologia, a digitalização, o avanço do uso de dados e a inteligência artificial aumentaram a demanda por novas especialidades e por profissionais de infraestrutura, redes e segurança da informação. Berto afirmou: “Em tecnologia, por exemplo, a corrida pela digitalização, pelo uso inteligente de dados e pela inteligência artificial gerou uma pressão imediata sobre as bases operacionais, exigindo o fortalecimento de infraestrutura tradicional, redes e segurança da informação”.
A pressão também aparece nas áreas de finanças, contabilidade e fiscal, que precisam lidar com mudanças regulatórias, como os desdobramentos da Reforma Tributária e novas normas de reporte. Recursos humanos também ganha protagonismo, principalmente nas frentes de atração, retenção e treinamento. O executivo disse: “A gestão de pessoas ganha protagonismo com foco em atração, retenção e programas de capacitação interna dos times, justamente para suprir a falta de profissionais prontos no mercado”.
Perspectivas para os próximos meses
O Índice de Confiança Robert Half também mede as expectativas dos profissionais responsáveis pelas contratações. O índice ficou em 36,8 pontos para o cenário atual e 44,1 pontos para os próximos seis meses. A diferença mostra empresas cautelosas no presente, mas mais otimistas em relação ao que pode acontecer nos próximos meses. Juros elevados, atividade econômica e incertezas eleitorais continuam entrando nas contas das lideranças. Segundo Berto, esses fatores já estão amplamente incorporados ao planejamento das organizações.
Berto afirmou: “A combinação entre o custo de capital elevado e o mercado de trabalho operando nas mínimas históricas de desocupação faz com que as empresas adotem uma postura de maior cautela financeira e seletividade, focando as decisões de contratação nas necessidades operacionais mais imediatas”.
Diante desse cenário, as empresas precisam repensar suas estratégias de recrutamento e retenção, investindo em capacitação e buscando profissionais com potencial de crescimento, mesmo que não atendam a todos os requisitos. O mercado de trabalho segue dinâmico, e a dificuldade para contratar profissionais qualificados deve permanecer um desafio nos próximos meses, exigindo adaptação e criatividade por parte das organizações.
Fonte
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