A Ambev (ABEV3), única entre as três maiores fabricantes de cerveja do Brasil com ações na bolsa, enfrenta um cenário econômico misto. Segundo análise do BTG Pactual, eventos sazonais e transformações fiscais criam oportunidades e incertezas para o setor.
Essa combinação pode definir a trajetória da empresa e de suas concorrentes, Heineken e Petrópolis, nos próximos anos.
Eventos que impulsionam o consumo de cerveja
O calendário de 2025 apresenta condições favoráveis para o setor de bebidas. Um verão mais quente e mais feriados tradicionalmente elevam a demanda por cervejas, especialmente em bares e restaurantes.
Impacto da Copa do Mundo
A Copa do Mundo promete dar uma ajudinha extra às receitas das fabricantes. O evento deve impulsionar estabelecimentos durante os dias de jogo, gerando aumento no consumo e beneficiando toda a cadeia produtiva.
Efeito das eleições e isenção fiscal
Outro aspecto positivo vem das eleições, com a isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil. Essa medida deve ampliar o orçamento disponível para gastos extras da população.
Parte desse recurso pode ser direcionado para o consumo de cerveja. Em conjunto, esses eventos criam um cenário propício para um desempenho robusto do setor no curto prazo.
O desafio dos reajustes de preço no setor
Em 2025, Heineken e Ambev ajustaram seus preços no Brasil, uma movimentação comum para compensar custos operacionais. Contudo, o ajuste causou uma queda na demanda maior que o previsto.
Sensibilidade do consumidor
A forte reação de queda no volume no ano passado após os aumentos de preço revelou uma sensibilidade do consumidor aos aumentos. Isso sugere que a capacidade das cervejarias de repassar novos reajustes pode ser mais limitada do que se imaginava.
O episódio recente serve como um alerta para o setor. Os consumidores estão mais atentos aos valores e dispostos a reduzir o consumo em resposta a altas significativas.
A reforma tributária em curso no Brasil
A partir do ano que vem, o cenário fiscal do Brasil passará por mudanças profundas com a implementação da Reforma Tributária. As principais alterações incluem:
- Extinção do PIS/Cofins, substituídos pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS)
- Redução gradual do ICMS (estadual) e ISS (municipal), sucedidos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS)
- Taxa base do Imposto sobre Valor Agregado (IVA, que une CBS e IBS) será de 26,5%
Impacto do Imposto Seletivo
Para as fabricantes de cerveja, a principal mudança vem do Imposto Seletivo (IS) federal, cobrado de cigarros, bebidas alcoólicas, veículos poluentes e outros. Esse tributo específico tem potencial para alterar significativamente a estrutura de custos do setor.
A Ambev, por exemplo, teve um imposto sobre sua receita de 43,8% nos últimos 10 anos, com valores de 42% em 2024 e 2025. Isso indica a relevância da carga tributária para seus resultados.
A indefinição que preocupa o setor cervejeiro
A regulamentação do Imposto Seletivo ainda não foi proposta pelo governo e nem chegou ao Congresso para votação, criando um vácuo de informações. Segundo o BTG Pactual, é esperado que a taxa seja híbrida.
Cálculo e cronograma indefinidos
O cálculo deve combinar o preço da bebida e a porcentagem de álcool presente. A definição da taxa deve sair apenas na segunda metade deste ano, com implementação prevista para 2027.
Esse cronograma alongado mantém o setor em suspense. A indefinição afeta decisões de investimento, produção e inovação em toda a cadeia, pois as empresas não têm clareza sobre os custos futuros.
O que esperar dos próximos passos
O setor de cervejas no Brasil se encontra em uma encruzilhada. Ventos favoráveis de curto prazo, como a Copa do Mundo e a isenção fiscal, contrastam com nuvens no horizonte, como a sensibilidade a preços e a reforma tributária indefinida.
Para a Ambev, como única empresa listada entre as grandes, esses fatores são especialmente relevantes para os investidores que acompanham a ABEV3. A capacidade da empresa de navegar por esse cenário misto será testada nos próximos trimestres.
A atenção agora se volta para o governo e o Congresso, que precisam avançar na regulamentação do Imposto Seletivo para dar previsibilidade ao setor. Enquanto isso, as fabricantes devem monitorar de perto o comportamento do consumidor.

