Durante décadas, a principal explicação para o gigantismo esteve relacionada aos níveis de oxigênio da atmosfera. No entanto, estudos indicam que a resposta pode envolver uma combinação de fatores biológicos, ambientais e evolutivos.
A hipótese do oxigênio elevado
A hipótese mais conhecida está ligada ao período Carbonífero, entre cerca de 359 milhões e 299 milhões de anos atrás. Uma revisão científica publicada na revista Proceedings of the Royal Society B, assinada por Jon Harrison e outros pesquisadores, reuniu evidências de que as variações no oxigênio atmosférico poderiam ter influenciado o tamanho dos insetos. Hoje o oxigênio representa cerca de 21% da atmosfera. Estimativas indicam que a concentração de oxigênio pode ter se aproximado de 30% em determinados momentos do final do Paleozoico.
Segundo os pesquisadores, essa condição teria favorecido especialmente os artrópodes, grupo que inclui insetos, escorpiões, centopeias e milípedes. Os insetos não possuem pulmões como mamíferos e aves. Em vez disso, eles respiram por meio de uma rede de tubos microscópicos chamada sistema traqueal, responsável por transportar oxigênio diretamente para os tecidos. Durante muito tempo, cientistas acreditaram que níveis mais elevados de oxigênio permitiam que esse sistema funcionasse de forma mais eficiente, favorecendo o surgimento de espécies gigantes.
Exemplos de gigantes do passado
A Meganeura, um inseto semelhante às libélulas atuais, podia atingir cerca de 75 centímetros de envergadura. A Arthropleura, um miriápode terrestre, pode ter atingido até cerca de 2,6 metros, segundo estimativas feitas a partir de fósseis incompletos. Esses tamanhos impressionantes contrastam com os insetos modernos, cujas dimensões são bem mais modestas. A Meganeura, por exemplo, é quase três vezes maior que a maior libélula atual, que tem cerca de 19 centímetros de envergadura. Já a Arthropleura supera em muito qualquer centopeia ou milípede vivo, que raramente ultrapassam 30 centímetros.
Novas evidências questionam a teoria
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar se o oxigênio sozinho seria suficiente para explicar o gigantismo dos artrópodes. De acordo com um estudo publicado em março deste ano na revista Nature, liderado por Edward Snelling, da Universidade de Pretória, o sistema respiratório dos insetos talvez não imponha limitações tão rígidas ao crescimento corporal quanto se imaginava. A equipe analisou 44 espécies modernas de insetos voadores e constatou que as traquéolas geralmente ocupam 1% ou menos da área dos músculos de voo. Os resultados indicam que a difusão de oxigênio entre as traquéolas e os músculos de voo provavelmente não era o fator que limitava o tamanho máximo desses insetos.
O estudo enfraquece a hipótese de que a difusão de oxigênio nos músculos de voo tenha determinado o tamanho máximo dos insetos. Os autores ressaltam que outros efeitos fisiológicos do oxigênio ainda precisam ser investigados. Por exemplo, o oxigênio pode ter influenciado o desenvolvimento embrionário ou a taxa metabólica, aspectos que não foram abordados no estudo. Dessa forma, a pesquisa abre caminho para novas investigações sobre os mecanismos que realmente controlam o tamanho corporal.
Fatores ecológicos e evolutivos
Os cientistas também apontam fatores ecológicos como parte da resposta. Durante grande parte do Paleozoico, aves, morcegos e muitos predadores modernos ainda não existiam. A ausência de predadores aéreos e terrestres especializados pode ter permitido que os artrópodes atingissem tamanhos maiores sem a pressão seletiva que limita o crescimento. Além disso, a competição por recursos e a disponibilidade de alimento também podem ter desempenhado papéis importantes. A combinação de oxigênio elevado, ausência de predadores e condições ambientais favoráveis pode ter criado um cenário único para o gigantismo.
Em resumo, a ciência ainda busca uma explicação definitiva para o tamanho dos animais no passado. As evidências atuais apontam para uma interação complexa entre fatores fisiológicos, ecológicos e evolutivos. Enquanto novas pesquisas não surgem, o mistério dos gigantes do Paleozoico continua a fascinar cientistas e o público.
Fonte
- exame.com
- Assinar (lps.exame.com)
- Entrar (id.exame.com)
- Proceedings of the Royal Society B (royalsocietypublishing.org)
- Nature (www.nature.com)
- faculdade exame (www.exame.com)

